Oficina DJ por Elas

Dia 8 de maio de 2017. UERJ em estado de greve, professores sem salários, bolsistas/cotistas sem suas bolsas e outras precariedades. No entanto, diante deste cenário, surgiu a vontade de realizar um encontro diferente com os estudantes da disciplina de Música: Processos e Modalidades, através de uma metodologia inovadora e interessante: uma oficina ministrada por uma aluna de graduação, Mariana Schumacher. O resultado? Segue o post que você verá…

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Depoimento do prof. Marcelo Wasem:
“Hoje a Oficina Livre “ Dj por Elas foi assim…. Mariana Schumacher chegando ponta-firme! Gratidão pela sua disponibilidade, disposição e vontade de ensinar… tudo isso em uma aula aberta e pública – quem tava a fim, chegou junto! Que nossa UERJ siga nesta batida… re-existindo sempre!!!”

Depoimento da ministrante Mariana Schumacher:
“Meu dia começou 5 da manhã e tá terminando agora, 23hrs. A sensação é de total bem estar por saber que to caminhando no trilho certo. Só agradecer!”whatsapp-image-2017-06-25-at-20-12-05-5.jpegWhatsApp Image 2017-06-25 at 20.12.05 (2)

Entrevista com a ministrante

Thatiana Montenegro: Como surgiu a ideia da oficina?

Mariana Schumacher: A ideia surgiu a partir da minha atuação como DJ. Em 2015 fiz um curso nessa área e continuei me aprofundando. O meu interesse vai além da função do DJ em si. Por conta disso, vinha conversando com o professor Marcelo Wasem sobre a importância da sonoridade. Então, ele me convidou para realizar essa oficina pro pessoal de artes na disciplina de Música.

TM: Como você se sentiu em ministrar essa oficina?

MS: Me senti muito bem. Os alunos estavam abertos e interessados no assunto e o fato de poder levar essa experiência pra eles foi demais.

TM: O que você percebeu das pessoas naquele dia?

MS: Percebi que diante da situação da UERJ tínhamos um publico menor mas não menos interessado em estar ali presente.

TM: Faria novamente? Com qual proposta?

MS: Com certeza faria de novo. Gostaria de propor um “curso” mais extenso. Dividindo as aulas em um tempo certo para conseguir gerar um resultado mais efetivo.

Ouça um set de Deep House da DJ Mari Schumacher no Mixcloud.

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Faixa 7 – Política – Queimada, amazônia, soberania alimentar, custo da terra

SINOPSE

Cardápio à base de plantas, convites, queimada para limpeza e subemprego, 1.000 bóias-frias, fragmento florestal, falta de políticas públicas, eles se reencontram, o que vocês fazem está certo, módulos pequenos de SAF´s, soberania alimentar como independência, polarização de posicionamentos entre agrofloresteiros e monocultores.

A: Na Bienal tem um restaurante, a cozinha, a gente sequestrou a cozinha. Ela nunca foi sequestrada antes por artistas, então desta vez a gente tomou conta desse espaço, para fazer com que ele tenha algum alinhamento com o tema da Bienal. Um dos temas fortes da Bienal é a questão ecológica. Então não fazia sentido a gente manter um restaurante desconectado, não é? De um evento que está falando sobre ecologia. A ideia é a gente ter um cardápio a base de plantas. O que a gente conseguir de agroflorestal. Então essa é uma das formas da gente trazer os agrofloresteiros, pelo produto. Que as pessoas estejam lá comam floresta, participem desse processo. E a gente também vai ter um fórum de discussão dentro do restaurante, no espaço do restaurante. A gente vai convidar os agrofloresteiros para falar, contar sobre a experiência deles. Então a gente pensou em convidar você também…

B: Não gosto de falar muito.

C: Deixa um microfone…

A: Pode acontecer de alguma intenção?

B: Ah, eu acho que a maior parte, sim. Essa história da bituca, não sei o que… Eu acho que…

A: É muito pouco, não é?

B: É muito pouco. Tem o negócio da estrada… Mas eu acho que a maior parte mesmo é algum tipo de…

C: E tem a questão deles mesmo.

B: Vingança…

C: Alguns têm um sistema mais de monocultura, aí é o jeito mais simples de limpar a área; então eles vão limpar.

B: Tem esse tipo, o cara vai fazer um foguinho só para limpar, mas…

C: Sai do controle.

B: Isso pode acontecer.

A: Entendi.

B: Antes a usina fazia queimada.

C: Voa fuligem.

B: Aí também tinha essa coisa de escapar, nunca assumiram. Mas também tinha essa perspectiva de poder sair do controle. Mas, há uns 3 ou 4 anos já, a usina não queima mais por conta de lei e tal.

D: A usina você está se referindo a todo o… o caldo mais formal…

B: A usina que eu falo é toda a cana que está em volta, você entendeu? Quer dizer, tem uma usina que domina a cana; mas tem várias usinas na região. Então quando eu falo usina, genérico assim, é sobre o pessoal da cana mesmo, porque eles são uma ilha num mar da cana.

D: Uhum. E isso foi proibido então, não é? Esse método?

B: É, a lei, a lei no Estado de São Paulo. Foi todo um processo. Já tem acho que uns quatro ou cinco anos, não sei, um protocolo de gradativamente… Porque aí isso implica em fazer a coleta mecanizada porque, quando é boia-fria, se não queimar o trabalho rende muito pouco. O próprio boia-fria não gosta também, apesar de ele se sujar todo no carvão – não sei se já viram foto de boia-fria trabalhando –, mas eles preferem porque também tem risco de cobra. Esse pó, o pelinho que fica da cana seca, incomoda.

D: Uhum.

B: Então é um pouco isso. Quer dizer, ao acabar com a queima, você também acaba com o boia-fria e entra na economização, é um processo… aquela coisa. É excludente sob o ponto de vista de… Mas também está deixando de… Eu acho positivo porque é um trabalho muito miserável, semiescravo.

C: Mas dentro desse protocolo tinha a questão da obrigação de qualificar também as pessoas e de remanejar elas, mas…

B: É, mais legal.

C: Mas termina não funcionando.

B: O cara tem mil boias-frias e vai absorver três tratoristas, um operador de…

C: Isso…

B: Então é um emprego melhor, sem dúvida, e eu acho que é isso, eu acho positivo. Isso é, você sair de uma condição de subemprego, emprego temporal, super explorado. E é sofrido para as pessoas que ficaram sem esse emprego. Mas na dinâmica um pouco mais histórica eu achava fundamental.

A: E ela, a receptividade e a questão agroflorestal na universidade, ela…

B: Bom, eu vinha conversando com o Marcos no caminho, a gente acha que na Amazônia o pessoal respira o ambiente florestal. Mas a lógica desenvolvimentista e de cópia de outros sistemas de produção impera e vem avançando cada vez mais. Então na região que eu estou, como é a mais povoada do estado, que é onde se deu origem ao processo de colonização, já não tem mais fragmento florestal…

A: É mesmo?

B: Então é um trabalho de reconstrução tanto da questão cultural quanto da questão dos saberes e de recomposição da paisagem.

A: Caramba.

B: Você tem aí duas frentes de expansão do agronegócio que é o nordeste do Pará e o sul do Pará – o sul do Pará onde avança os grãos, a soja e a pecuária –, e o nordeste que vem avançando com a produção de palma de dendê.

A: Uhum.

B: Palma de óleo.

A: Tudo monocultura.

B: Sim. Então o processo de construção se assemelha porque é uma lógica estrutural no país.

A: Sim, o modo de pensar mesmo.

B: E com as dificuldades da Amazônia de acesso às políticas públicas e de demora para chegar, a logística da região… tem regiões em que o transporte é basicamente fluvial, não onde eu estou, mas essas regiões em que a logística é via fluvial é bem mais difícil.

A: Uhum.

B: Então é um desafio. [risos]

A: É… Imagino.

B: Mas, está sendo bacana, sendo legal. Porque os agricultores, quando a gente chega com o debate – da agroecologia, dos sistemas agroflorestais – parece que eles se reencontram.

A: Ah, que legal.

B: Porque todo mundo chega para dizer que tem que ser diferente. Aí chega um que fala “não, o que vocês fazem está certo, podemos melhorar ainda mais”. Então é aquela coisa… agora tem alguns que já passaram pelo processo de deformação da extensão convencional.

A: Uhum.

B: Apresentam as mesmas resistências dos agricultores aqui…

A: Uhum.

B: Então é bem dinâmico, mas…

A: Que tem muito… Você pega e fala para quem nunca ouviu falar em SAF. Você fala para uma pessoa que tem que plantar árvore, plantar as coisas no meio. Nossa, ninguém quer saber disso. Porque fala: “Não, mas como é que eu vou produzir embaixo de árvore? Não tem jeito. Banana, café… como é que eu vou produzir as coisas?”. Foi mais nesse sentido também que a gente fez o SAF: como que funciona isso? A gente vai ter que aprender, e aí só aprende fazendo. E a gente fez e criou, montamos a primeira área. E depois disso a gente criou um grupo ecológico Terra Viva por conta. E a partir dos recursos dos projetos que a gente participou, a gente conseguiu aumentar essas áreas. Hoje eu acho que a gente não vai dar conta ou então vai virar… Vai virar mata, porque a gente não dá conta de manejar tudo. A mão de obra que a gente tem não dá conta de manejar todas essas áreas. Então uma dica é não fazer uma área grande de AF, que é o que lá em Ribeirão eles acertaram na mosca, de fazer área pequena, módulo pequeno, porque daí você dá conta, você consegue. No espaço pequeno você consegue plantar bastante hortaliça, diversificar bastante. Aqui é quatro mil metros [quadrados], mais uma que está longe de casa e outra que, com a mão de obra que tem, você não conseguiria plantar aquilo tudo de eucalipto. De eucalipto! De eucalipto, mas também de hortaliça para fazer a diversidade…

B: Nem tem como, não tem água… aqui em cima.

A: Não tem. Não tem condição, mesmo que se tivesse ia ser mais difícil.

B: Daí a gente queria fazer uma experiência com hortaliça, a gente gosta bastante da ideia de cooperafloresta, essa coisa até das verduras terem o seu extrato. A gente não sabe muito isso, então…

A: Está aprendendo, está buscando.

B: Está aprendendo… De fazer uma experiência com hortaliça já pensando na hortaliça mais na lógica de tentar diversificar ao máximo o mesmo canteiro. Com uma couve, com, sei lá, rameirão, com várias coisas no mesmo lugar para aproveitar o espaço que na natureza é isso, um monte de árvore num lugar só, uma mata. Não tem nenhuma competindo com a outra, uma está respeitando o espaço da outra, e as coisas se dão bem no espaço. Então a gente também aprende a fazer um pouco desse jeito. Agora esse espaço aqui não dá para fazer porque…

A: E pensando a questão da soberania alimentar a gente tem várias ideias, só que tem vários limites. Mas a gente já tem a proposta de que talvez um dia a gente… Compre… O que Rosa? [risos].

B: Se pudesse não comprar nada [risos].

C: Comprar nada, não é? Conseguir se alimentar da própria terra, que terra não falta. A: Essa é a dificuldade. Em todo lugar que você vai as pessoas pensam em geração de renda. Renda, não; é vender, vender. É muito difícil você ir num lugar que tenha uma proposta como essa. Hoje eu vendo, mas amanhã eu quero produzir e comer tudo o que eu… boa parte que eu preciso. Acho que a coisa mais difícil é você chegar, alcançar esse objetivo que é a soberania alimentar.

B: E além da soberania alimentar a gente também faz o resgate das sementes.

A: Então, isso está junto.

B: A gente pega, por exemplo, aquela história do SAF… A mandioca é nossa, não compramos de ninguém, mas também ela faz muito tempo… Essa batata é nossa, o açafrão é nosso… tudo. O amendoim que a gente planta é nosso, o feijão daí é nosso, o quiabo é nosso. Então a gente não comprou nada para plantar aqui. É tudo coisa que a gente tem mesmo…

A: Então isso caminha junto com essa questão de agroecologia, porque quando a gente tem o mínimo de gasto para produzir, isso reflete na hora de vender. Porque se eu estou pensando na lógica orgânica, eu insisto em adubação orgânica, em semente orgânica, em tudo orgânico. Eu troco um pacote por outro, mas eu não tenho autonomia. A gente não cria autonomia. Então nisso a agroecologia é diferente, ela nos liberta dessa lógica do capital. Então se a gente tem a rama de mandioca, a gente faz esse processo de troca, leva e troca e daí isso vai refletir na hora de vender. Eu posso vender por um preço melhor, mais barato.

C: Uhum.

D: E mais pessoas tem…

A: […] até porque daí todo mundo tem acesso. É justamente essa questão da escultura [risos], pensar quem, aonde vai alcançar, até aonde vai chegar.

B: Mesmo as hortaliças também, a gente tem. Por exemplo, eu entro no varejão só para olhar as coisas, eu não tenho coragem de comprar mais…

[risos]

B: […] eu não tenho coragem de comer aquilo [risos].

A: Vou plantando, planto aqui… Sempre vou ter produção, vou ter diversidade. Mas vou ter produção. Se quiser comer tomate, pode comer.

[risos]

A: […] pode pegar aí no pé, fica à vontade.

C: Vandeí, uma pergunta: vocês têm alguma relação com os monocultores ou com o pessoal que faz esse cultivo da cana ou é completamente blindada a relação?

A: É, no geral, é difícil o contato. Nós viemos para cá, para Ribeirão Preto, na capital do agronegócio. Então todo mundo planta cana, e alguns plantam só cana, e os cara perderem para uma reforma agrária. Isso foi um absurdo para Ribeirão Preto; eles conseguiram até mudar uma lei Federal, que falava que para assentar uma família tem que ser no mínimo cinquenta mil reais. Esse aqui custou 550 mil para cada família, porque o custo da terra aqui é muito alto. Eles queriam vender a terra aqui por metro quadrado, então isso ultrapassou os limites de recurso do governo para assentar famílias numa terra tão cara como essa. O pessoal aqui da região achou um absurdo perder uma fazenda dessa para fazer assentamento.

C: O preço é pela proximidade com a cidade.

A: Isso, pelo valor que a terra tem é a proximidade com a cidade, grandes mercados, rodovia. Então, isso dá um módulo rural, que é o preço da terra. Acesso ao mercado, acesso às rodovias, a escoamento de produção, essas coisas. E aqui, em Ribeirão Preto, sempre foi uma cidade, uma região rica, porque produziu café na época da colonização, tinha os barões do café, depois veio o gado, tinha muito fazendeiro de gado que tomava conta do nordeste do estado inteirinho. Aqui, era tudo fazendeiro de gado e cavalo de raça. E depois veio a cana, com os filhos, os herdeiros que foram arrendando e produzindo. Plantar cana, então, sempre foram famílias que dominavam a região e pessoas pequenas não tinham chance, não têm vez. É tudo dos grandes, só. Tipo, a usina da pedra, aqui no fundo, aqui atrás, ela mói mais ou menos 350 mil hectares de cana. Então, uma região enorme aqui, só ela que toma conta, monopoliza toda a região.

D: E você olha em volta.

A: É, só ela… [risos] é só ela.

C: Para produção de álcool.

A: É, lá do Sepé para cá só tem ela. Se vocês forem no Sepé – é uma usina que têm no meio –, só tem ela.

D: Só não ocuparam o morro porque não tem como subir a máquina.

A: É, é uma idiotice, tem tudo na natureza. A gente faz uma horta, copia os japoneses, dona Suzana? Tem tudo lá bicho, na agrofloresta. Para quê você vai fazer uma… Isso que é arte! Isso que é arte!

AUTORIA / AUTHORSHIP:

Jorge Menna Barreto, Marcelo Wasem

DECUPAGEM, CRIAÇÃO E EDIÇÃO / DECOUPAGE, CREATING AND EDITING:

Izabel Süssekind, Marcelo Wasem, Mariana Brum, Nathan Braga, Thatiana Montenegro, Vitor Rocha, Yago Toscano

Faixa 6 – Economia – Salada de juçara, preservação, produtividade, consumo

SINOPSE

Preservação como necessidade, povos da floresta, salada de juçara, consórcios e produtividade, culturas sombreadas, consumo coletivo, conhecer a plantação.

A: Como o nome do restaurante é Restauro, está priorizando um alimento que também tenha um papel de regeneração do estômago.

B: É, e restaurar não é só essa coisa de restauração ambiental, mas também, tem muito de restauração do próprio ser humano. Você vê assim que a autoestima, isso resgata a autoestima das pessoas, da família, de agricultores…

A: É, com certeza! Até da saúde também, não é?!

B: E uma coisa que eles estão começando a trabalhar, é uma coisa assim… eles estão resgatando essa coisa de trabalhar com espécies nativas. Eu não sei se os chefes de cozinha têm esse conhecimento, acho que é importante saberem… O SAF é assim: lógico, tem uma abóbora orgânica, a mandioca, o milho… só que de repente de usar uma coisa assim: uma fruta que dá, como a uvaia, uma fruta da Mata Atlântica que quase ninguém conhece, entendeu? E que é super saborosa, é uma das minhas prediletas…

A: Ah! Quero provar, eu não conheço.

B: Me chama. Eu tenho umas coisas assim, dá para resgatar essas coisas nativas…

A: Nossa. Isso é super importante.

B: Que está vinculada ao SAF, todos os projetos têm que ter espécies exóticas e nativas da Mata Atlântica. E também tem uma coisa super legal: você já ouviu falar das Pancs?

A: Sim, sim…

B: Que são as Plantas Não Convencionais, então, já existem umas pessoas que estão começando, mesmo dentro do SAF, a trabalhar as nativas, que acabam sendo um pouco Pancs, porque elas não são convencionais e comercialmente conhecidas.

A: É escultórico, é desenho, é cor, é, sei lá, tem uma coisa, a magia, que tem aquela… [som de dedos estalando]

D: E o que trabalha a intuição, a intuição que é muito e, até a gente estava lembrando disso, porque ontem eu estava aqui em cima de um material de divulgação do nosso trabalho de Educação Ambiental e, em 2012, a gente criou aqui e teve que bolar na hora, e saiu assim: “Arte na Terra”. É que, na verdade, para gente era isso. Quer dizer, tem gente que acha “Ah! É arte né…”, aí fica muito pautado assim nas artes, que existem, “Ah! Então vamos fazer teatro lá…”. É, mas, na verdade, o Arte na Terra para gente é agrofloresta. Que é fazer a arte na terra. Porque é meio que fazer ali e dentro dessa intuição de toda a sensibilidade, é artesanal.

E: E a gente está fazendo uma pesquisa de faculdade, para manejar a área de uma certa forma para ver a quantidade de matéria orgânica, cobertura de canteiro e tal. Cada canteiro é coberto de um jeito, de um formato, na mata aqui.

F: Eu faço mestrado na agroecossistemas, em Florianópolis.

A: Ah! Você é de Floripa?

F: Eu sou agrônoma e aí me interessei pela agrofloresta (AF). Aí eu vim. Queria fazer uma pesquisa com as AFs… e eu já tinha uma linha com meu ex-orientador, de testar consórcios. Mas, era mais para testar misturas de árvores. Mas aconteceram alguns imprevistos e eu acabei tendo oportunidade de vir fazer o trabalho aqui. Então a proposta foi de testar os consócios de hortaliças. Mas, para analisar como as plantas interagem de acordo com algumas características delas, como a botânica, a altura de planta, a arquitetura dela, o tipo de nutriente que ela explora no solo. Na verdade, o que eu senti foi uma dificuldade de aceitar uma mulher fazendo pesquisa de campo. Ele queria me colocar logo dentro do laboratório de jaleco, ou então que eu fizesse banco de dados. Ficasse trabalhando digitando, ou trabalho de escritório ou de laboratório [risada]. Ele incentivava mais os rapazes nos trabalhos de campo, e olha que esse professor é jovem.

A: Uma coisa que a gente ficou pensando muito desde ontem é essa noção de escala mesmo.[barulho de serra elétrica]. A gente saiu ali de uma coisa que está cultivando brotinho mínimo. Assim, em termo de escala, é a potência de um pensamento que é revolucionário. Mas, daí quando tu vê, o mundo como tá… É um choque assim… ontem a gente até parou para captar a paisagem sonora em uma plantação de cana e a gente não viu um inseto, um pássaro, nada.

G: Como alguém consegue sobreviver naquilo [risada]?

A: E um silêncio assim, que parecia do fim do mundo. Nossa, acabou, não é?

[som de pássaros]

G: Eu confesso que eu imaginava que seria bem silenciosa, mas, foi mais do que imaginava.

A: Exatamente! Marcelo, eu tinha a imagem, sabia, mas não sabia que seria um silêncio tão… tão pesado. Uma coisa como “urrrrr” [onomatopeia com a boca], parece que suga.

G: Olha isso! Gente, estou chocado.

A: Putz! Eu entraria para gente tentar. Acho que isso deveria entrar no projeto, esse contraste…

G: Uhum…

A: Como oposto.

G: Sim, do que a gente quer…

A: É o que vai, é o que vai mostrando, que também tem.

G: Mas é uma dificuldade. A gente conseguir transportar essa realidade do silêncio. A: Mas eu acho que é um áudio conceitual, porque, vai ficar uma que está rodando. Parece que está justamente essa ausência. Tu entende? Só é reconhecível enquanto título. Se tu disser assim: “Fazenda de cana em São Pedro”. E daí não tem nada no som.

G: Tem um som, não é?

A: Tem o que a gente gravou… que é o nada.

AUTORIA / AUTHORSHIP:

Jorge Menna Barreto, Marcelo Wasem

DECUPAGEM, CRIAÇÃO E EDIÇÃO / DECOUPAGE, CREATING AND EDITING:

Izabel Süssekind, Marcelo Wasem, Mariana Brum, Nathan Braga, Thatiana Montenegro, Vitor Rocha, Yago Toscano

Faixa 5 – Educação – Arte na terra, pensamento revolucionário, silêncio no canavial

SINOPSE

Restaurações variadas, nativas, PANC´s, a intuição, arte na terra é agrofloresta, interação das plantas, mulher em trabalho de campo, noção de escala, silêncio pesado, contraste entre paisagens sonoras, áudio conceitual.

A: Como o nome do restaurante é Restauro, está priorizando um alimento que também tenha um papel de regeneração do estômago.

B: É, e restaurar não é só essa coisa de restauração ambiental, mas também, tem muito de restauração do próprio ser humano. Você vê assim que a autoestima, isso resgata a autoestima das pessoas, da família, de agricultores…

A: É, com certeza! Até da saúde também, não é?!

B: E uma coisa que eles estão começando a trabalhar, é uma coisa assim… eles estão resgatando essa coisa de trabalhar com espécies nativas. Eu não sei se os chefes de cozinha têm esse conhecimento, acho que é importante saberem… O SAF é assim: lógico, tem uma abóbora orgânica, a mandioca, o milho… só que de repente de usar uma coisa assim: uma fruta que dá, como a uvaia, uma fruta da Mata Atlântica que quase ninguém conhece, entendeu? E que é super saborosa, é uma das minhas prediletas…

A: Ah! Quero provar, eu não conheço.

B: Me chama. Eu tenho umas coisas assim, dá para resgatar essas coisas nativas…

A: Nossa. Isso é super importante.

B: Que está vinculada ao SAF, todos os projetos têm que ter espécies exóticas e nativas da Mata Atlântica. E também tem uma coisa super legal: você já ouviu falar das Pancs?

A: Sim, sim…

B: Que são as Plantas Não Convencionais, então, já existem umas pessoas que estão começando, mesmo dentro do SAF, a trabalhar as nativas, que acabam sendo um pouco Pancs, porque elas não são convencionais e comercialmente conhecidas.

A: É escultórico, é desenho, é cor, é, sei lá, tem uma coisa, a magia, que tem aquela… [som de dedos estalando]

D: E o que trabalha a intuição, a intuição que é muito e, até a gente estava lembrando disso, porque ontem eu estava aqui em cima de um material de divulgação do nosso trabalho de Educação Ambiental e, em 2012, a gente criou aqui e teve que bolar na hora, e saiu assim: “Arte na Terra”. É que, na verdade, para gente era isso. Quer dizer, tem gente que acha “Ah! É arte né…”, aí fica muito pautado assim nas artes, que existem, “Ah! Então vamos fazer teatro lá…”. É, mas, na verdade, o Arte na Terra para gente é agrofloresta. Que é fazer a arte na terra. Porque é meio que fazer ali e dentro dessa intuição de toda a sensibilidade, é artesanal.

E: E a gente está fazendo uma pesquisa de faculdade, para manejar a área de uma certa forma para ver a quantidade de matéria orgânica, cobertura de canteiro e tal. Cada canteiro é coberto de um jeito, de um formato, na mata aqui.

F: Eu faço mestrado na agroecossistemas, em Florianópolis.

A: Ah! Você é de Floripa?

F: Eu sou agrônoma e aí me interessei pela agrofloresta (AF). Aí eu vim. Queria fazer uma pesquisa com as AFs… e eu já tinha uma linha com meu ex-orientador, de testar consórcios. Mas, era mais para testar misturas de árvores. Mas aconteceram alguns imprevistos e eu acabei tendo oportunidade de vir fazer o trabalho aqui. Então a proposta foi de testar os consócios de hortaliças. Mas, para analisar como as plantas interagem de acordo com algumas características delas, como a botânica, a altura de planta, a arquitetura dela, o tipo de nutriente que ela explora no solo. Na verdade, o que eu senti foi uma dificuldade de aceitar uma mulher fazendo pesquisa de campo. Ele queria me colocar logo dentro do laboratório de jaleco, ou então que eu fizesse banco de dados. Ficasse trabalhando digitando, ou trabalho de escritório ou de laboratório [risada]. Ele incentivava mais os rapazes nos trabalhos de campo, e olha que esse professor é jovem.

A: Uma coisa que a gente ficou pensando muito desde ontem é essa noção de escala mesmo.[barulho de serra elétrica]. A gente saiu ali de uma coisa que está cultivando brotinho mínimo. Assim, em termo de escala, é a potência de um pensamento que é revolucionário. Mas, daí quando tu vê, o mundo como tá… É um choque assim… ontem a gente até parou para captar a paisagem sonora em uma plantação de cana e a gente não viu um inseto, um pássaro, nada.

G: Como alguém consegue sobreviver naquilo [risada]?

A: E um silêncio assim, que parecia do fim do mundo. Nossa, acabou, não é?

[som de pássaros]

G: Eu confesso que eu imaginava que seria bem silenciosa, mas, foi mais do que imaginava.

A: Exatamente! Marcelo, eu tinha a imagem, sabia, mas não sabia que seria um silêncio tão… tão pesado. Uma coisa como “urrrrr” [onomatopeia com a boca], parece que suga.

G: Olha isso! Gente, estou chocado.

A: Putz! Eu entraria para gente tentar. Acho que isso deveria entrar no projeto, esse contraste…

G: Uhum…

A: Como oposto.

G: Sim, do que a gente quer…

A: É o que vai, é o que vai mostrando, que também tem.

G: Mas é uma dificuldade. A gente conseguir transportar essa realidade do silêncio. A: Mas eu acho que é um áudio conceitual, porque, vai ficar uma que está rodando. Parece que está justamente essa ausência. Tu entende? Só é reconhecível enquanto título. Se tu disser assim: “Fazenda de cana em São Pedro”. E daí não tem nada no som.

G: Tem um som, não é?

A: Tem o que a gente gravou… que é o nada.

AUTORIA / AUTHORSHIP:

Jorge Menna Barreto, Marcelo Wasem

DECUPAGEM, CRIAÇÃO E EDIÇÃO / DECOUPAGE, CREATING AND EDITING:

Izabel Süssekind, Marcelo Wasem, Mariana Brum, Nathan Braga, Thatiana Montenegro, Vitor Rocha, Yago Toscano

Faixa 4 – Plantas – Origem genética, bananeira, comunicação pelas raízes

SINOPSE

De onde vêm essa planta, ambiente de origem, 14 variedades, movimentação das toceiras de bananas, poda, brota, rebrota, plantas como seres inteligentes e que se comunicam entre si, dengue é coisa de cidade, é coisa de sujeira.

A: Como é que vou fazer… Qual é o problema destas touceiras? Estas touceiras estão velhas, praticamente elas não estão mais produzindo. O manejo que eu faço, aqui nelas, é dividir elas em três. Vai deixar, três pés, dois pés…. Fazer com que ela volte a se reproduzir… Então, eu vou deixar ela andar para um lado, outra vai para outro lado e outra vai para frente. Eu divido praticamente esses três assim. [ruído] Uma dessas aqui eu vou rodando para lá [ruído]… Se puder limpar, de preferência [ruído]…

B: Acho que é melhor tirar estas daqui e deixar ela correr para lá.

A: Andar para lá.

B: Para ela não vir dominado aqui. Aqui tem uma…

A: Então quer dizer que esta pode cortar?

B: Pode cortar…, mas antes tem que fazer uma análise da touceira. Onde é melhor para você manejar. Aquela ferramenta é ótima só com corte. A gente consegue jogar ela aqui para o chão. Jogar para o chão desse jeito aqui, depois só a gente juntar e vir recolhendo. O mais baixo que você conseguir cortar, melhor… Aí é melhor a gente dividir aqui, se não a gente vai ficar batendo… Depois que limpar, aí ela fica mais vigorosa, vai dar uma boa ventilação, vai conseguir produzir melhor [ruído].

A gente deixa só esta…este meio aqui pode tirar, é?

A: Essa daqui pequenininha do meio pode tirar, essas também pode tirar [ruído]. É a opção que você pode fazer. Fica bonita, não? Dá uma dor! Imagina eu? Poxa, corta?

C: A poda é muito necessária.

A: É necessária. Na bananeira, então. É que nestes últimos anos eu fui estudar na Europa e aí tive que deixar tudo aqui praticamente abandonado. Estava a minha companheira grávida, trabalhando, então eu não consegui fazer nada [ruído]. Aí agora que eu retornei.

D: Nossa, ela sai pingando, não é, Hemes?

A: É muita água.

D: Praticamente uma…

A: É, uma caixa d’água, é uma caixa d’água…

A: Aí a gente lembra que a história dele é que as árvores do alto perdem folha na época da seca. Então, quando tem a entrada de matéria orgânica e de luz pra ele…

B: Isso pensando que…

A: Que ele é originário da Etiópia.

C: Africana?

A: Africana.

C: É. A origem da planta é muito importante.

A: De onde ela vem.

C: Isso é muito importante na agrofloresta.

A: Teria que saber de todas as plantas.

C: De todas! É.

A: De que ambiente ela é, de onde ela vem. Qual o ecossistema, como funciona aquele ecossistema?

C: Como é no ambiente de origem. Se fica lá em cima, fica lá embaixo.

A: Ecossistema que recebe muita inundação de rio, então precisa estar sempre jogando matéria orgânica. Entendeu? É um ambiente mais parado. São ambientes que têm um fluxo de vento que sempre está quebrando as árvores.

C: Muita dinâmica, não é? Muita dinâmica. Então são plantas com estas características.

A: Tem que conhecer a origem da planta. É. Eu falo que o carro-chefe aqui é banana. Porque a banana é uma planta que vai bem aqui, ela gosta de clima quente e [ruído] aqui não é úmido. Ela prefere clima úmido, mas aqui não é tão úmido, mas tem a terra boa. A terra aqui não chega a ser terra roxa. Mas é uma terra vermelha. Bem produtiva. Mas a ideia nossa é a produção de banana. Carro-chefe, não é?

B: Qual banana?

A: Nanica, maçã, prata. São as que mais se planta aqui. A gente consegue plantar catorze variedades aqui. A gente comprou de laboratório, mudas diversificadas, para trazer mais variedade para cá. A gente conseguiu plantas bastante variadas, mas as que vão bem mesmo são nanica, nanicão, prata e maçã. Que o pessoal cuida mais. Mas a gente tem plantado de tudo. Mamão, a gente produziu bastante também, e folhas e legumes também. A gente produz muito também. Aí mais no lote, que tem mais irrigação, mais cuidado no dia a dia mesmo […] um diálogo lá embaixo, assim, subterrâneo.

B: Total. E tem uma teoria do Ernest, que é exsudato de raiz, que as plantas têm uma comunicação assim. E eu acho que especialmente pela raiz. Só seria pela raiz mesmo. Que justamente você plantar… Você que me perguntou: “Se você entrar com uma mudinha nova?”.

C: Isso!

B: “Embaixo de uma planta madura”… esta planta, ela está com todo hormônio de planta madura, adulta. Aí você vai entrar com uma criancinha. Aí você poda ela, porque as raízes vão lançar hormônios de crescimento, de rebrota, e vão ajudar, este hormônio vai lançar para jovenzinha aqui o hormônio de crescimento.

C: Ah…

A: Solta o hormônio de rebrota, pelo exsudato, pela raiz. Então a raiz da outra aqui, ela pega. E aí, às vezes é o contrário: se estiver em uma planta morrendo ou bem madura, velha. Aí, se plantasse, mas não vai de jeito nenhum. Ficar aqui estagnado, naquela energia de maturação que está indo para morrer. Então a lógica da poda é essa…

C: Que sofisticação, né?

B: Super, não é? Essa parte aí tem fisiologistas pesquisando, até gostaria de ler, mais cientificamente é isso aí… Porque é bem bonito, não é?

C: Nossa! Demais!

AUTORIA / AUTHORSHIP:

Jorge Menna Barreto, Marcelo Wasem

DECUPAGEM, CRIAÇÃO E EDIÇÃO / DECOUPAGE, CREATING AND EDITING:

Izabel Süssekind, Marcelo Wasem, Mariana Brum, Nathan Braga, Thatiana Montenegro, Vitor Rocha, Yago Toscano

Laboratório de Sonoridades, Organicidades, Nomadologia, Artes e Radiofonias. Foco nos campos das Artes Sonoras, Arte Colaborativa e Ativismo.