Voltando…

E finalmente chegou 2018. Após quase 5 meses de greve, estamos retomando aos poucos às atividades regulares na UERJ. Com isso, as atividades no nosso Lab. S.O.N.A.R serão reiniciadas. Novos bolsistas, novos projetos, novos Podcasts, muita vontade de produzir e de experimentar.

Nos novos programas radiofônicos serão realizadas conversas, debates e entrevistas junto com músicas comentadas por pessoas ligadas a diferentes linhas artísticas e de pesquisa.

Nossa equipe atualmente conta com 6 bolsistas: Ana Carolina Mascarenhas, Dino Ferrer, Mariana Brum, Matheus Souza, Mayara Gomes e Thatiana Montenegro. A coordenação é do prof. Marcelo Wasem.

Em breve, novidades aqui no blog do projeto. Seguimos na escuta!

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Participação na SEMIC / UERJ

No dia 24 de novembro de 2017, a bolsista Mariana Brum apresentou as reflexões da bolsa de Iniciação Científica, acerca da produção dos últimos 3 anos do Lab. S.O.N.A.R., na 26ª Semana de Iniciação Científica, SEMIC / UERJ. Abaixo segue um resumo do poster que foi apresentado lá.

“rádio que humaniza é rádio feito à mão, artesanal (não-serial). Que sabe escutar o outro, que dá voz à alteridade, que não se ocupa apenas da voz-padrão. Depoimentos colhidos de forma direta fazem do radialista um oculto e do ouvinte, o interlocutor.” (PAULA, apud ZAREMBA, 2009, p. 163)

Introdução: Como pensar o som como uma potência em si mesma?  O projeto RadioAção busca explorar as possibilidades da dimensão sonora para além do campo musical e experimental, e direcionando-a aos atravessamentos de vivências e experiências como base para uma arte de contato, uma arte colaborativa e pública visando “ampliar nossa consciência cotidiana do ambiente sonoro”.

Objetivos: Desenvolver investigações artístico-politicas no campo sonoro em diálogo com a arte contemporânea visando o estudo de possibilidades de atuação e exploração do meio radiofônico para além de um meio de comunicação tradicional. Dois caminhos se mostraram frutíferos: a elaboração de programas no formato Podcast, e a realização de programas de rádio ao vivo.

Metodologia: O meio de rádio imprime uma dinâmica singular, da ordem do instante e da brevidade. Além passa também pelas etapas de pesquisa, edição e reflexão. São usadas as técnicas de manipulação de áudio para que os assuntos abordados se transformem em programas de rádio que contenham informações pertinentes, apresentando peças sonoras e outros materiais de áudio inusitados.

Resultados: Realização de programas de rádio tanto no formato podcast quanto ao vivo que tiveram como principal eixo a abertura para o contato e troca entre diferentes subjetividades e realidades que atuam concomitantemente dentro do espaço acadêmico e universitário. Percebemos como um dos resultados dessas experiências, que o caráter de denúncia e lamento se misturava à esperança e a força de resistência: “a UERJ não vai morrer”. Alguns dos programas realizados foram:

–           Entrevista com profa. Eloisa Brantes sobre ação do Lixo Olímpico;

–           Entrevista com prof. Mauro Trindade, do departamento de História da Arte

–           Entrevista com prof. Jorge Menna Barreto, sobre obra-restaurante na 32a. Bienal de Arte de São Paulo;

–           Entrevista com funcionários técnico-administrativos sobre suas atividades fora da UERJ;

–           Oficinas de rádio livre com discentes durante período de greves;

–           Criação de peças sonoras com depoimentos dos corpos docente, discente e técnico-administrativos

Conclusão: O intuito de fazer rádio, mas principalmente, de fazer uma rádio presente; de fazer do rádio não só um entretenimento, mas também um disparador de ações artístico-políticas. O presente projeto segue esta trilha, de uma radiofonia outra, que traga a sonoridade, a palavra, o diálogo, em prol de um projeto de escuta ampliada. Acreditamos que é aqui que o projeto se fundamenta e busca aprofundar.

Fotografia do poster final.

Coordenador Marcelo Wasem e bolsista Mariana Brum.

Marcelo Wasem e integrantes do Lab. S.O.N.A.R.: Ana Carolina Mascarenha e Mariana Brum.

 

Depoimentos ReExistências Afetivas

Esta atividade foi muito importante para o processo de resistência  contra o esvaziamento e os ataques para com a UERJ, criado coletivamente pelos corpos discente, docente e de servidores técnico-administrativos do Instituto de Arte durante o recesso forçado que aconteceu entre os meses de janeiro e maio de 2017.

Denominado de “Resistências (ou Re-Existências) Afetivas”, envolveu todo o Instituto de Artes e propostas foram desenvolvidas, tanto por professores quanto por alunos, de atividades que iam desde apresentações de pesquisas, conversas com pessoas de fora do Instituto de Artes, até a preparação de comidas coletivas, exercícios com o corpo e voz. É neste último caso, que se insere a ação do Lab. S.O.N.A.R.. Através de uma proposta de atividade de grupo feita pela professora do Instituto de Artes Eloísa Brantes, que consistiu na elaboração textual de depoimentos por parte dos alunos presentes, foi criada uma faixa de áudio com a gravação desses depoimentos no espaço do Estúdio de Artes Sonoras – local no qual o Lab. S.O.N.A.R. está instalado.

Através de um processo de fluxo de subjetividades e alteridades, os depoimentos escritos pelos alunos foram por eles lidos durante a gravação, porém de modo aleatório e misturado, no qual o eu dava lugar para o coletivo. Eram lidos apenas trechos sorteados no instante exato da leitura por parte de qualquer um dos alunos que dava voz ao que poderia (ou não) ter sido por ele escrito. Vale ressaltar que o caráter dos depoimentos era bastante contextualizado nas vivências sociais e particulares de cada um e na relação que cada pessoa possuía com a UERJ, como “a UERJ não pode morrer”. Os trechos foram lidos e gravados concomitantemente e sem interrupções. Após a gravação, foi realizado um processo de edição experimental, no qual as vozes por vezes soam claras e, em outros momentos, criam massas sonoras de ruídos. O resultado foi uma faixa de áudio de 3’44’’, divulgada e disponibilizada para download para todos do Instituto de Artes, na qual o caráter de denúncia e lamento se mistura à esperança e a força de resistência: “a UERJ não vai morrer”. A repercussão do áudio foi bastante intensa dentro do IARTE e todos aqueles que escutavam não se continham em tentar, quase em vão, testemunhar pela fala o que seus ouvidos haviam experimentado.

O resultado pode ser ouvido aqui.

Veja, ainda, algumas fotografias dos dias de gravação e edição.

Oficina DJ por Elas

Dia 8 de maio de 2017. UERJ em estado de greve, professores sem salários, bolsistas/cotistas sem suas bolsas e outras precariedades. No entanto, diante deste cenário, surgiu a vontade de realizar um encontro diferente com os estudantes da disciplina de Música: Processos e Modalidades, através de uma metodologia inovadora e interessante: uma oficina ministrada por uma aluna de graduação, Mariana Schumacher. O resultado? Segue o post que você verá…

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Depoimento do prof. Marcelo Wasem:
“Hoje a Oficina Livre “ Dj por Elas foi assim…. Mariana Schumacher chegando ponta-firme! Gratidão pela sua disponibilidade, disposição e vontade de ensinar… tudo isso em uma aula aberta e pública – quem tava a fim, chegou junto! Que nossa UERJ siga nesta batida… re-existindo sempre!!!”

Depoimento da ministrante Mariana Schumacher:
“Meu dia começou 5 da manhã e tá terminando agora, 23hrs. A sensação é de total bem estar por saber que to caminhando no trilho certo. Só agradecer!”whatsapp-image-2017-06-25-at-20-12-05-5.jpegWhatsApp Image 2017-06-25 at 20.12.05 (2)

Entrevista com a ministrante

Thatiana Montenegro: Como surgiu a ideia da oficina?

Mariana Schumacher: A ideia surgiu a partir da minha atuação como DJ. Em 2015 fiz um curso nessa área e continuei me aprofundando. O meu interesse vai além da função do DJ em si. Por conta disso, vinha conversando com o professor Marcelo Wasem sobre a importância da sonoridade. Então, ele me convidou para realizar essa oficina pro pessoal de artes na disciplina de Música.

TM: Como você se sentiu em ministrar essa oficina?

MS: Me senti muito bem. Os alunos estavam abertos e interessados no assunto e o fato de poder levar essa experiência pra eles foi demais.

TM: O que você percebeu das pessoas naquele dia?

MS: Percebi que diante da situação da UERJ tínhamos um publico menor mas não menos interessado em estar ali presente.

TM: Faria novamente? Com qual proposta?

MS: Com certeza faria de novo. Gostaria de propor um “curso” mais extenso. Dividindo as aulas em um tempo certo para conseguir gerar um resultado mais efetivo.

Ouça um set de Deep House da DJ Mari Schumacher no Mixcloud.

Faixa 7 – Política – Queimada, amazônia, soberania alimentar, custo da terra

SINOPSE

Cardápio à base de plantas, convites, queimada para limpeza e subemprego, 1.000 bóias-frias, fragmento florestal, falta de políticas públicas, eles se reencontram, o que vocês fazem está certo, módulos pequenos de SAF´s, soberania alimentar como independência, polarização de posicionamentos entre agrofloresteiros e monocultores.

A: Na Bienal tem um restaurante, a cozinha, a gente sequestrou a cozinha. Ela nunca foi sequestrada antes por artistas, então desta vez a gente tomou conta desse espaço, para fazer com que ele tenha algum alinhamento com o tema da Bienal. Um dos temas fortes da Bienal é a questão ecológica. Então não fazia sentido a gente manter um restaurante desconectado, não é? De um evento que está falando sobre ecologia. A ideia é a gente ter um cardápio a base de plantas. O que a gente conseguir de agroflorestal. Então essa é uma das formas da gente trazer os agrofloresteiros, pelo produto. Que as pessoas estejam lá comam floresta, participem desse processo. E a gente também vai ter um fórum de discussão dentro do restaurante, no espaço do restaurante. A gente vai convidar os agrofloresteiros para falar, contar sobre a experiência deles. Então a gente pensou em convidar você também…

B: Não gosto de falar muito.

C: Deixa um microfone…

A: Pode acontecer de alguma intenção?

B: Ah, eu acho que a maior parte, sim. Essa história da bituca, não sei o que… Eu acho que…

A: É muito pouco, não é?

B: É muito pouco. Tem o negócio da estrada… Mas eu acho que a maior parte mesmo é algum tipo de…

C: E tem a questão deles mesmo.

B: Vingança…

C: Alguns têm um sistema mais de monocultura, aí é o jeito mais simples de limpar a área; então eles vão limpar.

B: Tem esse tipo, o cara vai fazer um foguinho só para limpar, mas…

C: Sai do controle.

B: Isso pode acontecer.

A: Entendi.

B: Antes a usina fazia queimada.

C: Voa fuligem.

B: Aí também tinha essa coisa de escapar, nunca assumiram. Mas também tinha essa perspectiva de poder sair do controle. Mas, há uns 3 ou 4 anos já, a usina não queima mais por conta de lei e tal.

D: A usina você está se referindo a todo o… o caldo mais formal…

B: A usina que eu falo é toda a cana que está em volta, você entendeu? Quer dizer, tem uma usina que domina a cana; mas tem várias usinas na região. Então quando eu falo usina, genérico assim, é sobre o pessoal da cana mesmo, porque eles são uma ilha num mar da cana.

D: Uhum. E isso foi proibido então, não é? Esse método?

B: É, a lei, a lei no Estado de São Paulo. Foi todo um processo. Já tem acho que uns quatro ou cinco anos, não sei, um protocolo de gradativamente… Porque aí isso implica em fazer a coleta mecanizada porque, quando é boia-fria, se não queimar o trabalho rende muito pouco. O próprio boia-fria não gosta também, apesar de ele se sujar todo no carvão – não sei se já viram foto de boia-fria trabalhando –, mas eles preferem porque também tem risco de cobra. Esse pó, o pelinho que fica da cana seca, incomoda.

D: Uhum.

B: Então é um pouco isso. Quer dizer, ao acabar com a queima, você também acaba com o boia-fria e entra na economização, é um processo… aquela coisa. É excludente sob o ponto de vista de… Mas também está deixando de… Eu acho positivo porque é um trabalho muito miserável, semiescravo.

C: Mas dentro desse protocolo tinha a questão da obrigação de qualificar também as pessoas e de remanejar elas, mas…

B: É, mais legal.

C: Mas termina não funcionando.

B: O cara tem mil boias-frias e vai absorver três tratoristas, um operador de…

C: Isso…

B: Então é um emprego melhor, sem dúvida, e eu acho que é isso, eu acho positivo. Isso é, você sair de uma condição de subemprego, emprego temporal, super explorado. E é sofrido para as pessoas que ficaram sem esse emprego. Mas na dinâmica um pouco mais histórica eu achava fundamental.

A: E ela, a receptividade e a questão agroflorestal na universidade, ela…

B: Bom, eu vinha conversando com o Marcos no caminho, a gente acha que na Amazônia o pessoal respira o ambiente florestal. Mas a lógica desenvolvimentista e de cópia de outros sistemas de produção impera e vem avançando cada vez mais. Então na região que eu estou, como é a mais povoada do estado, que é onde se deu origem ao processo de colonização, já não tem mais fragmento florestal…

A: É mesmo?

B: Então é um trabalho de reconstrução tanto da questão cultural quanto da questão dos saberes e de recomposição da paisagem.

A: Caramba.

B: Você tem aí duas frentes de expansão do agronegócio que é o nordeste do Pará e o sul do Pará – o sul do Pará onde avança os grãos, a soja e a pecuária –, e o nordeste que vem avançando com a produção de palma de dendê.

A: Uhum.

B: Palma de óleo.

A: Tudo monocultura.

B: Sim. Então o processo de construção se assemelha porque é uma lógica estrutural no país.

A: Sim, o modo de pensar mesmo.

B: E com as dificuldades da Amazônia de acesso às políticas públicas e de demora para chegar, a logística da região… tem regiões em que o transporte é basicamente fluvial, não onde eu estou, mas essas regiões em que a logística é via fluvial é bem mais difícil.

A: Uhum.

B: Então é um desafio. [risos]

A: É… Imagino.

B: Mas, está sendo bacana, sendo legal. Porque os agricultores, quando a gente chega com o debate – da agroecologia, dos sistemas agroflorestais – parece que eles se reencontram.

A: Ah, que legal.

B: Porque todo mundo chega para dizer que tem que ser diferente. Aí chega um que fala “não, o que vocês fazem está certo, podemos melhorar ainda mais”. Então é aquela coisa… agora tem alguns que já passaram pelo processo de deformação da extensão convencional.

A: Uhum.

B: Apresentam as mesmas resistências dos agricultores aqui…

A: Uhum.

B: Então é bem dinâmico, mas…

A: Que tem muito… Você pega e fala para quem nunca ouviu falar em SAF. Você fala para uma pessoa que tem que plantar árvore, plantar as coisas no meio. Nossa, ninguém quer saber disso. Porque fala: “Não, mas como é que eu vou produzir embaixo de árvore? Não tem jeito. Banana, café… como é que eu vou produzir as coisas?”. Foi mais nesse sentido também que a gente fez o SAF: como que funciona isso? A gente vai ter que aprender, e aí só aprende fazendo. E a gente fez e criou, montamos a primeira área. E depois disso a gente criou um grupo ecológico Terra Viva por conta. E a partir dos recursos dos projetos que a gente participou, a gente conseguiu aumentar essas áreas. Hoje eu acho que a gente não vai dar conta ou então vai virar… Vai virar mata, porque a gente não dá conta de manejar tudo. A mão de obra que a gente tem não dá conta de manejar todas essas áreas. Então uma dica é não fazer uma área grande de AF, que é o que lá em Ribeirão eles acertaram na mosca, de fazer área pequena, módulo pequeno, porque daí você dá conta, você consegue. No espaço pequeno você consegue plantar bastante hortaliça, diversificar bastante. Aqui é quatro mil metros [quadrados], mais uma que está longe de casa e outra que, com a mão de obra que tem, você não conseguiria plantar aquilo tudo de eucalipto. De eucalipto! De eucalipto, mas também de hortaliça para fazer a diversidade…

B: Nem tem como, não tem água… aqui em cima.

A: Não tem. Não tem condição, mesmo que se tivesse ia ser mais difícil.

B: Daí a gente queria fazer uma experiência com hortaliça, a gente gosta bastante da ideia de cooperafloresta, essa coisa até das verduras terem o seu extrato. A gente não sabe muito isso, então…

A: Está aprendendo, está buscando.

B: Está aprendendo… De fazer uma experiência com hortaliça já pensando na hortaliça mais na lógica de tentar diversificar ao máximo o mesmo canteiro. Com uma couve, com, sei lá, rameirão, com várias coisas no mesmo lugar para aproveitar o espaço que na natureza é isso, um monte de árvore num lugar só, uma mata. Não tem nenhuma competindo com a outra, uma está respeitando o espaço da outra, e as coisas se dão bem no espaço. Então a gente também aprende a fazer um pouco desse jeito. Agora esse espaço aqui não dá para fazer porque…

A: E pensando a questão da soberania alimentar a gente tem várias ideias, só que tem vários limites. Mas a gente já tem a proposta de que talvez um dia a gente… Compre… O que Rosa? [risos].

B: Se pudesse não comprar nada [risos].

C: Comprar nada, não é? Conseguir se alimentar da própria terra, que terra não falta. A: Essa é a dificuldade. Em todo lugar que você vai as pessoas pensam em geração de renda. Renda, não; é vender, vender. É muito difícil você ir num lugar que tenha uma proposta como essa. Hoje eu vendo, mas amanhã eu quero produzir e comer tudo o que eu… boa parte que eu preciso. Acho que a coisa mais difícil é você chegar, alcançar esse objetivo que é a soberania alimentar.

B: E além da soberania alimentar a gente também faz o resgate das sementes.

A: Então, isso está junto.

B: A gente pega, por exemplo, aquela história do SAF… A mandioca é nossa, não compramos de ninguém, mas também ela faz muito tempo… Essa batata é nossa, o açafrão é nosso… tudo. O amendoim que a gente planta é nosso, o feijão daí é nosso, o quiabo é nosso. Então a gente não comprou nada para plantar aqui. É tudo coisa que a gente tem mesmo…

A: Então isso caminha junto com essa questão de agroecologia, porque quando a gente tem o mínimo de gasto para produzir, isso reflete na hora de vender. Porque se eu estou pensando na lógica orgânica, eu insisto em adubação orgânica, em semente orgânica, em tudo orgânico. Eu troco um pacote por outro, mas eu não tenho autonomia. A gente não cria autonomia. Então nisso a agroecologia é diferente, ela nos liberta dessa lógica do capital. Então se a gente tem a rama de mandioca, a gente faz esse processo de troca, leva e troca e daí isso vai refletir na hora de vender. Eu posso vender por um preço melhor, mais barato.

C: Uhum.

D: E mais pessoas tem…

A: […] até porque daí todo mundo tem acesso. É justamente essa questão da escultura [risos], pensar quem, aonde vai alcançar, até aonde vai chegar.

B: Mesmo as hortaliças também, a gente tem. Por exemplo, eu entro no varejão só para olhar as coisas, eu não tenho coragem de comprar mais…

[risos]

B: […] eu não tenho coragem de comer aquilo [risos].

A: Vou plantando, planto aqui… Sempre vou ter produção, vou ter diversidade. Mas vou ter produção. Se quiser comer tomate, pode comer.

[risos]

A: […] pode pegar aí no pé, fica à vontade.

C: Vandeí, uma pergunta: vocês têm alguma relação com os monocultores ou com o pessoal que faz esse cultivo da cana ou é completamente blindada a relação?

A: É, no geral, é difícil o contato. Nós viemos para cá, para Ribeirão Preto, na capital do agronegócio. Então todo mundo planta cana, e alguns plantam só cana, e os cara perderem para uma reforma agrária. Isso foi um absurdo para Ribeirão Preto; eles conseguiram até mudar uma lei Federal, que falava que para assentar uma família tem que ser no mínimo cinquenta mil reais. Esse aqui custou 550 mil para cada família, porque o custo da terra aqui é muito alto. Eles queriam vender a terra aqui por metro quadrado, então isso ultrapassou os limites de recurso do governo para assentar famílias numa terra tão cara como essa. O pessoal aqui da região achou um absurdo perder uma fazenda dessa para fazer assentamento.

C: O preço é pela proximidade com a cidade.

A: Isso, pelo valor que a terra tem é a proximidade com a cidade, grandes mercados, rodovia. Então, isso dá um módulo rural, que é o preço da terra. Acesso ao mercado, acesso às rodovias, a escoamento de produção, essas coisas. E aqui, em Ribeirão Preto, sempre foi uma cidade, uma região rica, porque produziu café na época da colonização, tinha os barões do café, depois veio o gado, tinha muito fazendeiro de gado que tomava conta do nordeste do estado inteirinho. Aqui, era tudo fazendeiro de gado e cavalo de raça. E depois veio a cana, com os filhos, os herdeiros que foram arrendando e produzindo. Plantar cana, então, sempre foram famílias que dominavam a região e pessoas pequenas não tinham chance, não têm vez. É tudo dos grandes, só. Tipo, a usina da pedra, aqui no fundo, aqui atrás, ela mói mais ou menos 350 mil hectares de cana. Então, uma região enorme aqui, só ela que toma conta, monopoliza toda a região.

D: E você olha em volta.

A: É, só ela… [risos] é só ela.

C: Para produção de álcool.

A: É, lá do Sepé para cá só tem ela. Se vocês forem no Sepé – é uma usina que têm no meio –, só tem ela.

D: Só não ocuparam o morro porque não tem como subir a máquina.

A: É, é uma idiotice, tem tudo na natureza. A gente faz uma horta, copia os japoneses, dona Suzana? Tem tudo lá bicho, na agrofloresta. Para quê você vai fazer uma… Isso que é arte! Isso que é arte!

AUTORIA / AUTHORSHIP:

Jorge Menna Barreto, Marcelo Wasem

DECUPAGEM, CRIAÇÃO E EDIÇÃO / DECOUPAGE, CREATING AND EDITING:

Izabel Süssekind, Marcelo Wasem, Mariana Brum, Nathan Braga, Thatiana Montenegro, Vitor Rocha, Yago Toscano

Laboratório de Sonoridades, Organicidades, Nomadologia, Artes e Radiofonias. Foco nos campos das Artes Sonoras, Arte Colaborativa e Ativismo.